nó | node

O maior desafio do início da fotografia foi o de descobrir como conservar a imagem fotográfica e toda a economia da fotografia, depois da sua invenção - quer dizer, da fixação perene da imagem -, tem sido baseada sobre a óptima conservação das fotografias por museus e coleccionadores. A proposta de Lorena Travassos para esta exposição vai contra esta regra. Os retratos feitos pela artista, nos jardins de Sintra, foram impressos sobre folhas de árvores dos parques e a impressão realizada apenas pelo sol. Em poucos dias, as folhas vão se deteriorar, as imagens vão desaparecer e ninguém vai poder coleccionar estas fotos.

É uma forma radical de destruição da imagem, uma espécie de iconoclastismo. Com isso, a artista sublinha a ausência e a morte. No seu trabalho, a fotografia deixa de ser um amuleto contra a morte e o desaparecimento - ou como sublinha Barthes: essa “imagem que produz a Morte a querer conservar a vida”. Na realidade, ela toma um sentido inverso porque precede e anuncia uma morte futura e o esquecimento do sujeito.

Estas fotografias associam o homem e a natureza (as folhas e o sol) dentro de uma única imagem. Esses rostos fantasmagóricos demonstram a impossibilidade de possuir o momento, de desafiar o tempo. Dentro da imagem, a presença do sujeito é flutuante e a perceção do tempo é limitada. A memória é condenada a atenuar-se, a desaparecer. O “Isso-foi” de Barthes transformou-se em um “Isso não-será-mais”.

Marc Lenot*

(http://lunettesrouges.blog.lemonde.fr/)

 

* texto publicado no catálogo da exposição coletiva "Significação: Outras imagens do Jardim" no MU.SA (Museu das Artes de Sintra).